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Breve História da Gaita-de-Fole
por Robles G. Luques - Janeiro de 2003
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Musette, Gaita-de-fole, Cornamusa, Gajdy, Düdelsack...
um instrumento musical com muitos nomes

Gravura de Albrecht Dürer- 1514


Por incrível que pareça, a Gaita-de-Fole já foi tocada em determinado período da história do Brasil. (clique aqui para saber mais)

Este é um instrumento milenar. Muitas pessoas pensam que sua origem seja escocesa, mas a maioria dos historiadores não pensa assim. Uma das teorias mais aceita é a de que a Gaita-de-Fole tenha surgido há muitos séculos nos países banhados pelo Mediterrâneo. Em tais regiões nascia (e ainda nasce) um caniço com o qual são feitas palhetas para instrumentos musicais de sopro, inclusive a Gaita-de-Fole.


No Egito, Países Árabes e na Grécia Antiga, tocava-se em cerimônias religiosas e festivas um instrumento que, na Grécia de nossos dias, é conhecido como "aulos", nos Países Árabes, como "mijwiz", e no Egito, como "arghoul".
Trata-se de vários caniços equipados com palhetas que são amarrados uns nos outros.
Estes instrumentos musicais eram feitos, em sua grande maioria, por pastores e camponeses.
Tais instrumentos eram tocados diretamente na boca. Isto exigia do músico uma técnica de sopro que ainda é utilizada, apesar de ser difícil sua execução por um principiante. Esta técnica é conhecida como "sopro contínuo" ou "respiração circular" . Aqueles que ouvem um aulos ou uma alboka (instrumento tocado no Nordeste da Espanha, País Basco) pensam que o músico tem uma capacidade pulmonar sobre-humana pois a respiração circular é feita de forma que o instrumento não páre de soar, enquanto o músico faz uma ligeira pausa para respirar.

Talvez para se tornar mais cômodo, não se sabe bem ao certo, alguns pastores tenham decidido que poderia-se acoplar tais tubos a um saco reservatório de ar, em vez de se tocar usando tal técnica. O som de um ou mais tubos sonoros poderia ser igualmente produzido de forma contínua, porém com menos esforço, visto que tal saco serveria como um "terceiro pulmão" para o músico. Os sacos de couro eram muito utlizados como reservatórios de líquidos naqueles tempos longínquos.

É especulativo mas, muito provavelmente, a Gaita-de-Fole nasceu desta forma.

Para fazer este saco, usava-se o couro de cabra ou carneiro. Em alguns modelos de Gaitas-de-Fole ainda se usa o formato do próprio animal como "design" do instrumento, acoplando-se o ponteiro, soprete e roncos (partes constitutivas da Gaita-de-Fole), no espaço onde estavam as patas dianteiras e o pescoço da cabra.

Foi um instrumento muito popular na Idade Média entre pastores e camponeses, que saiam de suas regiões de origem muitas vezes em busca de trabalho. Provavelmente esta também tenha sido uma das formas com que o instrumento tenha se difundido pela Europa daqueles dias, entre os músicos populares.

Era feito de couro de cabra e madeira ou caniços.
Existem modelos nos quais são acrescentados chifres que servem como um amplificador de som, o que serve como mais um indicativo, entre outros, da origem pastoril do instrumento.

Segundo alguns estudiosos do assunto, é possível que o instrumento tenha sido difundido pelo mundo antigo por meio dos conquistadores romanos. Alguns dizem que tal gaita era conhecida pelo nome de "Tibia Utricularis”, mas tal informação ainda não está de todo confirmada.
Acredita-se que os legionários romanos a tocavam como instrumento militar para inspirarem os soldados à luta. Através das guerras expansionistas do Império Romano difundiram a cultura musical deste instrumento por quase todo o território continental europeu.

No entanto, há de se considerar que, pelo menos no leste europeu, a Gaita-de-Fole possui características sonoras muito parecidas com as gaitas do Oriente Médio. Talvez pelo domínio otomano na região, tal cultura musical tenha chegado em tais localidades.

Em todos os casos, enfim, são teorias feitas em cima de poucos dados arqueológicos disponíveis, pelo menos até o momento.

Ainda segundo alguns musicólogos, apesar deste número ainda não ter sido confirmado, estima-se que existem, talvez, até mesmo centenas de tipos de Gaitas-de-Fole espalhadas entre os países europeus, africanos, árabes e asiáticos, com nomes diferentes (gaita, gaida, bagpipe, cornamusa, musette, odrecillo, säckpipa, chevrette, sackpfeifen, piòb mhor, düdelsack, bock, surle, uilleann, etc), aspectos e sonoridades variadas mas basicamente a mesma estrutura: um saco que funciona como reservatório de ar e uma flauta (ponteiro) equipada de uma palheta, acompanhada ou não, de um ou mais tubos que produzem um som contínuo (ronco ou bordão).

"Devil Playing the Bagpipes"
(Diabo tocando a Gaita-de-Fole)
Erhand Schön, 1530.
Figura que denota a gaita-de-fole como um instrumento demoníaco.
Fonte: http://www.prydein.com/pipes/

Nos países de língua portuguesa, o instrumento é conhecido como Gaita-de-Fole (ou Gaita-de-Foles) ou simplesmente gaita, termo também utilizado em outras localidades da Península Ibérica e países de língua espanhola com algumas variações como "gaita de fuelle" ou "gaita de fol", sendo este último encontrado na Galiza, região fronteiriça ao norte de Portugal.

Em alguns países ela teve seu declínio por motivos variados como o simples desprezo das classes elitizadas ou, em casos mais extremos, a proibição religiosa. Mas, curiosamente, em alguns momentos da história o mesmo instrumento "demoníaco" também era tocado em igrejas católicas como um "instrumento Divino".

Tudo leva a crer que o primeiro relato histórico do instrumento nas Américas tenha sido no Brasil, onde chegou com as Caravelas de Pedro Álvares Cabral, e permaneceu com certa popularidade até meados do século XVIII. Em Portugal a Gaita-de-Fole sobreviveu nos meios rurais mais afastados.

Vitral que denota a gaita-de-fole como um instrumento Divino, sendo tocada por um Anjo.
Fonte: http://www.prydein.com/pipes/
Está sendo recuperada por etnógrafos e musicólogos através de intensas pesquisas. Com isto, deixou de ser tocada apenas pelos mais velhos para ser apreciada, também, pelos mais jovens. Em terras brasileiras o mesmo está acontecendo: o interesse pelo instrumento está sendo (re)despertado e, posso dizer que o objetivo destas linhas aqui escritas é despretensioso, sendo apenas informativo, visto que a maior parte dos brasileiros desconhece a sua herança gaiteira luso-brasileira, pensando que a gaita seja de origem exclusivamente escocesa, o que é um engano.

Podemos concluir este pequeno relato dizendo que a gaita-de-fole é um instrumento que atravessou vários séculos, podendo até mesmo ser considerado "patrimônio da humanidade" pois não é de propriedade deste ou daquele povo, existindo em vários países e culturas do Mundo. Esteve presente nos mais variados contextos das sociedades do passado, ora tocada em momentos de prazer- como festas- ora em momentos de profunda reflexão e devotamento- como cultos- ora em momentos de fúria, como em guerras.

E como as civilizações, teve seu apogeu e seu declínio, mas sempre sobrevivendo e se adaptando à passagem dos séculos, às dificuldades e, em alguns casos, à ignorância humana.

Robles G. Luques / Janeiro de 2003

(fontes: "Bagpipes" de Anthony Baines e Associação Gaita-de-foles, Portugal)
 
Odrecillo do século XIII.
Cantigas de Santa Maria.
Côrte do Rei Espanhol Alfonso X, o Sábio.
Reconstrução do odrecillo feito por
Luques
a partir da iconografia.
Detalhes da escultura em forma de cabeça de carneiro feitas à mão.
Escute o som deste instrumento
(MP3 - 279 k)

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