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Evidências históricas da
Gaita-de-Fole
no Brasil


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A Gaita-de-Fole já fez parte de nossa herança musical luso-brasileira
por Robles G. Luques
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O primeiro relato histórico de um instrumento europeu no Brasil indica que seja a Gaita-de-Fole.
Esta informação consta na Carta de Pero Vaz de Caminha, quando do Descobrimento do Brasil.
Aliás, podemos ir até mais além: o primeiro relato de uma Gaita-de-Fole em todas as Américas (do Norte, Central e Sul) é datado de 1500, justamente no Brasil.

Isto faz do Brasil o primeiro país do "novo mundo" a ter recebido dos europeus uma Gaita-de-Fole.

Dois trechos escritos por Caminha evidenciam a presença de gaitas e gaiteiros naquele dia:

1) "cõ jsto se volueo bertolameu dijz ao capitam e viemonos aas naaos acomer tanjendo tronbetas e gaitas sem lhes dar mais apresam e eles tornaramse aasentar na praya”;

2) “pasouse emtam aalem do rrio diego dijz alxe que foy de sacauem que he homê gracioso edeprazer e leuou comsigo hû gayteiro noso cõ sua gaita e meteose cõ eles adançar tomandoos pelas maõs e eles folgauam e rriam e amdauam cõ ele muy bem ao sõ dagaita”.

O relato à seguir é similar ao exposto acima, porém, traduzido para o português contemporâneo. Referindo-se aos indígenas, Caminha comenta:

"E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima."


Por mais incrível que pareça, até meados do século XIX, há relatos de que a Gaita-de-Fole portuguesa foi tocada no Brasil.

Uma ilustração muito interessante, de Rugendas, mostra um escravo a tocar uma gaita-de-fole (clique aqui).

No livro "Vocabulário da Língua Brasílica" de 1621, de autoria de Leonardo do Vale a palavra “gaita” aparece como "membi" e “gaiteiro” como “membigaçara”, no idioma tupi. Provavelmente esta era a forma como os índios referiam-se ao instrumento tocado pelos portugueses, visto que, no Brasil, não existia gaitas-de-fole ou instrumento similar tocado pelos indígenas.

No poema Ásia (Lisboa: Germão Galharde, 1552), o autor João de Barros comenta sobre a despedida da embarcação de Pedro Álvares Cabral, no Porto de Lisboa, em 9 de Março de 1500:
“E o que mais levantava o espírito destas cousas, eram as trombetas, atabáques, séstros, tambores, frautas, pandeiros, e até gaitas, cuja ventura foi andar em os campos no apascentar dos gádos, naquele dia tomáram posse de ir sôbre as águas salgadas do mar, nesta e outras armadas, que depois a seguiram, porque, para viágem de tanto tempo, tudo os homens buscavam para tirar a tristeza do mar.”

Neste poema a gaita-de-fole torna-se muito mais que um instrumento musical. Era uma evocação, quando tocada, às mais alegres lembranças dos campos verdejantes de Portugal, onde podia-se ouvir o som da gaita sendo tocada pelos pastores ou, ainda, lembranças de bons momentos em festividades. Lembranças estas que acompanharam os marinheiros por uma viagem tão longa à terras desconhecidas.

Um texto traduzido para o castelhano sobre os jesuítas, na sua missão catequisadora pelo Brasil, diz sobre a solicitação de instrumentos musicais europeus, entre eles, a gaita-de-fole.
Na Bahia, em 5 de agosto de 1552, uma carta de um menino indígena, escrita pelo Padre Francisco Pires ao Padre Pero Doménech em Lisboa (LEITE, 1956), diz:
“Parézeme, según ellos son amigos de nossas músicas, que nosotros tañendo y cantando entre ellos los ganaríamos, pues differencia ay de lo que ellos hazen a lo que nosotros hazemos y haríamos si V. R.a nos hiziesse proveer de algunos instrumentos para que acá tañamos (imbiando algunos niños que sepan tañer), como son flautas, y gaitas, y nésperas, y unas vergas de yerro con unas argollicas dentro, las quales tañen dando con un yerro en la verga; y un par de panderos y sonajas. Si viniesse algún tamborilero y gaitero acá, parézeme que no havría Principal que no diesse sus hijos para que los enseñassen.”

Em outro relato, datado de 16 de Outubro de 1585, o jesuíta Fernão Cardim, escrevendo do Colégio da Bahia, informa sobre uma festa realizada em 6 de janeiro de 1584:
“Acabada a festa espiritual lhes mandou o padre visitador fazer outra corporal, dando lhe um jantar a todos os da aldêa, debaixo de uma grande ramada. [...] Emquanto comiam, lhes tangiam tambores, e gaitas.”


Gregório de Matos e Guerra (1633? - 1696), poeta, escreveu um romance que começa com “Vamos cada dia à roça” , que diz:

“Vamos, e fiquemos lá
um dia, ou uma semana,
que enquanto as gaitas se tocam,
sabe a roça, como gaitas.”
...
“E nos vamos para a roça
com nosso feixe de gaitas
até ver me descasada
para me rir, de quem casa.”


Para alguns estudiosos do assunto, pode haver uma ambigüidade no emprego da palavra "gaita" pois não há meios de ter um "feixe de gaitas". Acreditam que o autor referia-se à flautas. No entanto, um gaiteiro pode carregar uma gaita-de-fole pegando-a pelo soprete e tubos sonoros (ponteiro e ronco) assemelhando-se à um feixe.


Em documentos históricos do século XVIII, como o "Triunfo Eucarístico", ou o "Áureo Trono Episcopal", que relata a chegada a Mariana do primeiro Bispo, Dom Frei Manuel da Cruz, mais uma vez, a gaita-de-fole é citada.


Outro relato, já um pouco mais "recente", datado do século XIX, fala sobre as experiências do viajante inglês Henry Koster pelo Brasil, que diz:

Em janeiro de 1812 ele (Koster) acompanhou a revista que um capitão-mor de um distrito
vizinho ao seu fez aos oficiais das companhias de ordenança sob seu comando. Na povoação de Bom Jardim, em Pernambuco, a inspeção deu-se na companhia do capitão Anselmo, um agricultor de algodão de recursos mais modestos, cuja fazenda contava com cerca de 40 escravos. Conta Koster que, na hora do jantar, o capitão chamou seus músicos...

"... três negros com gaitas de foles começaram a tocar pequenas toadas
em tons diversos um do outro, e às vezes, [eu] supunha que um deles
executava peças de sua própria composição. Imagino que alguém jamais
tentou produzir harmonias sonoras com tão mal resultado como esses
charameleiros. A posse de uma dessas bandas empresta um certo grau
de superioridade e, conseqüentemente, os ricos plantadores têm orgulho
pelos seus músicos (KOSTER, 1942, p. 272)."


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Com o exposto é evidente, pois, que a Gaita-de-Fole foi presente nas primeiras sociedades luso-brasileiras. No entanto, desapareceu da nossa cultura, talvez por desinteresse das sociedades posteriores que preferiram instrumentos que eram mais tocados em conservatório, como violinos, flautas, clarinetes, etc, à um instrumento que era tocado, na Europa, por pastores, camponeses e gente humilde, que tocavam a gaita para passar o tempo enquanto pastoreavam ou, que tocavam o instrumento musical para adorarem, nos ritos católicos, os santos das festividades religiosas ou, até mesmo, para animar as bebedeiras em prostíbulos.
Eis, portanto, a necessidade de recuperarmos a cultura gaiteira que, intensa ou não, existiu, de alguma forma, no Brasil.

Autor: Robles G. Luques - São Paulo - S.P. - Brasil - Março de 2007.


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Parte deste estudo foi levantado pelo Sr. Paulo Castagna e Breno Saraiva (Brasil) e compartilhado, também, pelo Sr. Fernando Conde do escritório de Carlos Núñez (Galiza, Espanha)

Bibilografia:

Gregório de Matos e Guerra (1633? - 1696). Obras completas; crônica do viver baiano seiscentista; fielmente copiada de manuscritos anônimos daquele tempo, e dispostos como melhor pareceu a um curioso de nome James Amado. Cópias finais do texto para impressao e mapeamento dos códices James Amado e Maria da Conceiçao Paranhos; atualizaçao ortográfica Miécio Táti. Salvador, Ed. Janaína Ltda., 1968. v.6, n.23, p.1349 (Coleçao "Os baianos", v.I - Obras completas de Gregório de Matos, 7v.).

BARROS, João de. Décadas; seleção, prefácio e notas de Antonio Baião. Lisboa, Livraria Sá da Costa, v. I, 1945. 259p. (Coleção de Clássicos Sá da Costa).

Sobre Koster, tese no site da Unesp: http://www.ia.unesp.br/pos/stricto/musica/teses/Binder%20vol%201.pdf

CORTESÃO, Jaime. A carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo, Livraria Editora Livros de Portugal LTDA, 1943. [Transcrição paleográfica:] Parte II Transcrição e exegese da Carta: Cap. VI Estudo paleográfico e transcrição da carta, pp. 117 189. [Leitura atual:] Cap. VII Carta de Pero Vaz de Caminha. Adaptação à linguagem atual, p.193 241.

CARDIM. Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil; Introduções e notas de Rodolpho Garcia, Baptista Caetano e Capistrano de Abreu. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1980 (Coleção Reconquista do Brasil, nova série, v. 13). Doc. III: « Informação da missão do P. Christovão Gouvêa às partes do Brasil ou narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica », p.141 176.

VEIGA, Manuel. Marcos aculturativos na etnomusicologia brasileira. Art, Salvador, Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, n.6, p.9-50, dez. 1982 e n.7, p.9-56, abr. 1983.

VALE, Leonardo do. Vocabulário na Língua brasilica. 2ª edição revista e confrontada com o Ms. fg. 3144 da Bibl. Nacional de Lisboa por Carlos Drumond. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, n.137, 1952 1953. 2v. (Etnografia e tupi guarani, n.23).

LEITE, Serafim. Monumenta Brasiliae I (1539 1568). Roma, Monumentae Historica S.I., 1956. (Monumenta Historica Societatis Iesu a Patribus Eiusdem Societatis Edita, volumen 79 Monumenta Missionum Societatis Iesu, vol.X Missiones Occidentales). Doc. 52: Carta dos Meninos Órfãos [escrita pelo P. Francisco Pires] ao P. Pero Doménech, Lisboa. Baía 5 de agosto de 1552, p.375 389.

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